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3 contos do livro 50 Contos de Machado de Assis - Seleção por John Gledson

sábado, novembro 04, 2017



     Temos o hábito de ficar super assustados com leituras consideradas mais difíceis, e quando o assunto é tio Machadão rola aquele medo de não entender absolutamente nada! Na verdade, não há como negar que para ler Machado de Assis precisamos estar dispostos a amadurecer como leitores, e buscar algumas informações sobre as suas características como escritor, o momento em que vivia, porque escreve da forma que vemos. Esse processo, traumático para muitos, aconteceu de forma mais tranquila para mim porque no cursinho – e antes no ensino médio -  tive a oportunidade de ouvir meus professores de literatura falando sobre o autor de forma totalmente apaixonada, isso ajudou bastante.

     Por isso, trouxe esse post na véspera do Enem, para falarmos um pouco sobre esse livro de contos do Machado, dos  50 – não dá para falar de todos em um post – escolhi falar sobre 3 contos que me chamaram atenção e que fizeram meu coração bater forte por Machadão, só que antes listarei algumas características marcantes desse escritor para entendermos um pouquinho porque ele é tão importante para literatura brasileira e internacional.

Algumas características do Machado de Assis:
1 ) Ironia : Geralmente as obras dele são recheadas por cenas ou falas irônicas por parte dos personagens ou acontecimentos na narrativa.
2) Intertextualidade: Para quem não sabe, isso quer dizer que Machado adora citar outros atores ao longo de seus livros, as vezes isso pode dificultar o nosso entendimento, mas posso dizer que muitos livros explicam a quem ele faz referência para nos ajudar a entender.
3) Interlocução:  Nosso autor gostava de falar diretamente conosco! Em sua obra Memórias Póstumas de Brás Cubas há momentos em que ele se dirige especialmente para leitor. (nem sempre isso é agradável, eu senti que ele nos xingou nessa obra (risos). Brincandeirinha!)
4) Digressão:  Machado nem sempre narra a história de forma linear, com um começo, meio e fim. Ele costuma quebrar a história em partes diferentes ao longo da narrativa.
5) Análise Psicológica: Machado costumava fazer observações sobre o comportamento  e percepções sobre o relacionamento humano, e isso é bem presente na construção dos seus personagens.

Bom, foram só algumas das várias características que ele tinha na escrita, então vamos conhecer os contos?
A Cartomante
Parte da capa do HQ "A Cartomante" publicada pela Zahar em 2008


     Esse conto começa com Rita conversando com seu amante Camilo sobre o fato de ela ter visitado uma cartomante, e para surpresa da personagem a vidente adivinhara que o motivo da ida de Rita até lá era para saber se eles ficariam juntos ou não. Porém, enquanto Camilo achava tudo isso uma grande bobagem, Rita acreditava nas palavras da mulher, o que tranquilizou os dois, afinal eles eram amantes, esse fato fez com que eles continuassem se encontrando as escondidas de Vilela, o marido.
     O problema era que Camilo recebera um bilhete afirmando saber o que ele e Rita estavam fazendo, a partir daí ele sentiu que Vilela – seu amigo de infância – ficou mais frio com ele e por isso Camilo também se afastou. Só que um dia, ele recebeu um bilhete de Vilela que dizia “Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora”, Camilo ficou apavorado com a notícia, por isso no caminho até a casa dele, resolveu visitar a cartomante. Ela deixou o rapaz com a sua previsão, e sim um  final surpreendente.

“A virtude é preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo”

     Esse conto é muito interessante, a fala acima é de Rita, se tratando de uma conversa entre o casal em um momento de medo da ameaça recebida. O conto nos ajuda a deixar a idealização da mulher de lado porque mostra que a mulher não é um anjo, também trai. Além disso, demonstra que a cartomante estava claramente se aproveitando do fato de que ambos queriam ser confortados, então ela falava apenas aquilo que eles querem ouvir. Com isso Machado propõe uma forma inteligente de falar sobre assuntos polêmicos para época ao mesmo tempo que marca um dos contos mais famosos da sua carreira.

Pai contra Mãe
       
 Tia Mônica, Clara segurando as mãos de Cândido ( Representação de Teatro em 2013 - Insensata Cia de Teatro)


     Cândido Neves não gosta de trabalhar, mas quer formar uma família. Por isso, encontra uma moça chamada Clara, ambos se apaixonaram e se casaram. Só que Tia Mônica os alertou que eles deveriam se abster de ser pais no momento porque eles não tinham riquezas, quer dizer eles não tinham quase nada. Clara cozinhava com a tia, mas é óbvio que isso não era suficiente para sustentar uma família, sobretudo porque Cândido não se mantinha em um emprego fixo.
      As coisas começam a ficar complicadas quando Clara engravidou de um menino e Cândido se desesperou a fim de conseguir um emprego, o que ele conseguiu foi uma tarefa muito comum na época, a de captura de escravos fugidos. Inicialmente, esse trabalho dá certo, no entanto com o tempo esse serviço começou a falhar e a família começou a passar fome, além de Tia Mônica sugerir que a  criança deve ser "entregue para adoção" - ou como dito no conto para a roda dos rejeitados -  a fim de não passar necessidades como todos eles.

“Nem todas as crianças vingam”

     Esse texto é um dilema assim como o conto O caso da vara, pois Cândido é o pai e a mãe que ele se põe contra é uma escrava grávida. O conto retrata a dura realidade da escravidão, pois expõe os castigos e a falta de liberdade que esta condição trazia sobre a pessoa, afinal a escrava mesmo grávida era digna de um tratamento cruel em detrimento da vida de Cândido e sua família. Lembra que eu te disse que ele capturava escravos? Machado vai criticar esse período, ainda que algumas pessoas digam que ele não tenha falado do assunto, mostrando o imaginário preconceituoso da época, além do destino horrível das pessoas que não são donas de si mesmas.

O Alienista
Foto não-autoral 

     Simão Bacamarte é um médico renomado que adora pesquisar sobre a loucura, e por isso ele volta a sua cidade para fazer um manicômio chamado Casa Verde. Inicialmente, ele começa internar pessoas que realmente precisavam de tratamento, mas com o tempo ele se entrega em amor a essa atividade, e sua esposa Evarista sente falta dele. Um dia, o Simão recolheu o Costa – um homem bom que emprestava dinheiro as pessoas porque ele tinha uma herança, mas as pessoas não o devolviam porque ele não tinha coragem de cobrar de volta. – para a Casa Verde, o que deixou as pessoas de Itaguaí revoltadas. Daí, a prima do Costa fez um comentário sobre o ocorrido e foi recolhida também ao manicômio.  A partir desse momento o médico recolheu muitas outras pessoas, posteriormente até mesmo as pessoas mais inocentes.

“- A saúde da alma, bradou ele, é a ocupação mais digna de um médico.”

     Gente, essa história aqui é muito louca, mas eu gostei muito. Lembro-me que refleti sobre o papel da ciência nas nossas vidas e se podemos aceitar tudo que é dito cegamente, além de pensar em buscar conhecimento para não queremos questionar sem saber de nada e nem ser passado para atrás. Na verdade, a mensagem que eu senti sendo passada pelo Machado nessa história é ainda mais profunda porque ele nos leva a querer fazer uma sondagem psicológica de nós mesmos!




     Enfim, este post ficou maior do que eu esperava que ele ficaria, mas estou muito feliz por ter feito. Espero que ele possa ter representado um pouco o porquê de termos Machado de Assis como um grande escritor, e por despertar em você o desejo de ler algum desses contos. Tenho uma dica para você, achei um canal chamado Metaforizando Pensamentos (clique aqui para ver)  em que há analises de todos os contos desse livro, é sensacional porque tive dificuldade para entender e fui auxiliada por esse canal. Já leu algo do Machado? Me conta o que achou!






2 comentários:

  1. Ah amiga eu explodo de orgulho de você quando eu leio seus posts! Amei muito mesmo e quero dar uma nova chance ao Machadão haha

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    Respostas
    1. Dê sim amiga, a leitura não é das mais fáceis, mas compensa!

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